Depois da chegada da IA | Artigo 1 de 8
Por Marcos S. C. Costa, sócio-fundador da Radio Design
Toda semana, dentro da pauta I.A. alguém anuncia o fim de alguma coisa. O fim dos cargos de entrada. O fim das agências, dos analistas, dos designers, dos advogados. Há quem vá além e anuncie o fim do próprio trabalho: em dez anos, dizem, ninguém mais vai precisar trabalhar.
Vale parar um minuto e fazer algumas perguntas. Afinal, cada uma dessas previsões tem autor, data e número, e nem sempre a manchete diz o mesmo que o estudo que a originou.
Por que esses pânicos são criados? Quem ganha com a crição desse temor? O receio acelera a adoção da IA nas empresas? Ou faz o contrário, e trava a mudança, porque as pessoas resistem àquilo que ameaça o seu lugar?
E mais: quanto tempo essa mudança vai levar? E quem vai formar os profissionais que vão trabalhar ao lado da IA?
Uma previsão com longa história
A previsão do fim do trabalho tem uma longa história. Em 1930, o economista John Maynard Keynes escreveu que, em cem anos, as máquinas permitiriam uma semana de trabalho de 15 horas. Em 1964, um grupo de cientistas e intelectuais enviou ao presidente dos Estados Unidos um memorando alertando que a automação iria separar o trabalho da renda e deixar milhões de pessoas sem emprego.
Cada previsão dessas acertou alguma coisa e errou outra. As máquinas mudaram profundamente o trabalho. E, a cada transição, surgiram funções que ninguém tinha conseguido imaginar antes.
Desta vez pode ser diferente: a IA tem características que nenhuma tecnologia anterior teve. Justamente por isso, vale olhar para as previsões com um pouco mais de calma, e com a memória do que já aconteceu.
O que vamos investigar
Sem a pretensão de trazer todas as respostas, esta série vai fazer algumas reflexões sobre essas perguntas, e sobre outras que vão aparecer pelo caminho.
Vamos começar pelo próprio pânico: quais foram as matérias, os estudos e os manifestos que o criaram, quem os publicou e por que a notícia ruim chega mais longe. Depois, vamos olhar para o que está circulando hoje e comparar com o que outras grandes transições já mostraram: a eletricidade, o computador, a internet. Vamos ouvir quem estuda o assunto com dados, das escolas de negócios que estão formando executivos para a IA aos economistas que acompanham o mercado de trabalho. E vamos trazer o que vemos de dentro das empresas.
Há uma ideia que vai nos acompanhar: a de slow news, a notícia lenta. Em vez de reagir a cada manchete, olhar para o que de fato se confirma com o tempo.
Por que nós
Na Radio Design, há 16 anos trabalhamos dentro de grandes empresas, nos momentos em que elas precisam decidir e convencer. Nesse tempo, vimos muitas novidades chegarem cercadas de expectativa e de receio, e acompanhamos o que aconteceu depois, nas áreas, nas equipes e nas empresas. É desse lugar que vem a nossa leitura.
A série é semanal. O próximo artigo sai na próxima semana. Até lá, deixamos a pergunta: o que o receio da IA já mudou na sua empresa?
Fontes
- John Maynard Keynes. Economic Possibilities for our Grandchildren. 1930.
- Ad Hoc Committee on the Triple Revolution. The Triple Revolution. Memorando ao presidente Lyndon Johnson, março de 1964.